Desconstruindo a Máquina do Charlatanismo Médico na Era da Internet

Tempo de leitura: 37 minutos

E ainda mais importante: entenda porque reclamar e fazer denúncias no CRM nunca vão resolver de forma definitiva esse câncer da saúde pública moderna.

Fato: existe um mecanismo perverso por trás das estratégias de Gurus Digitais que prometem mundos e fundos para cura de doenças crônicas e ganham rios de dinheiro com a dor e sofrimento alheio.

Até o fim deste artigo, você vai entender exatamente os motivos pelo qual defendemos que apenas fazer denúncias e campanhas esporádicas em redes sociais nunca vai resolver o problema. Mas antes de chegar lá, é bom separarmos um pouco as coisas.

Sejamos mais profundos e menos superficiais

Quando episódios como o do “Dr. Bumbum” vêm à tona, é muito comum vermos opiniões de toda sorte. Alguns mais exaltados, outros mais contidos e muitos fazendo graves confusões com alegações superficiais e generalizadas, usando um exemplo como bandeira de todo um suposto movimento.

Nas últimas semanas, presenciamos o aparecimento de diversas falácias em grupos de médicos nas redes sociais. Veja alguns exemplos adaptados que retirei de alguns desses grupos (e que refletem a opinião de uma pequena parcela de profissionais):

  • “É um absurdo médico se expor em redes sociais dessa forma. Tenho dó de colegas que precisam fazer isso para conseguir manter o consultório. Quem faz o serviço bem feito não tem que se preocupar com essas coisas”;
  • “Dó de quem precisa ficar publicando vídeos no Youtube pra ter reconhecimento.”;
  • “É um absurdo o médico não poder fazer marketing como em outras profissões. Medicina não é sacerdócio”;
  • “O CRM é pré-histórico. Enquanto tivermos esses dinossauros no CRM não vamos poder divulgar nossos negócios”;
  • “É muito antiético médico usar redes sociais para conseguir seguidores”.

As pessoas confundem as coisas.

É como se todos os médicos que estão em redes sociais fossem sensacionalistas e charlatões. É como se todos os médicos que possuem um canal no Youtube para levar informações de saúde para pacientes fossem picaretas. É como se todos que fazem divulgação ética de seus consultórios fossem “ruins de serviço”. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Em primeiro lugar, é um erro tremendo pensar que médicos não podem fazer propaganda ou marketing. Podem sim. No entanto, há regulamentação. É óbvio que há. E que bom que há. Se não houvesse, “doutores Bumbuns” seriam ainda mais numerosos.

Depois, engana-se quem pensa que o CRM é passivo frente à esses casos de excessos. Médicos são notificados e são sujeitos a processos administrativos quando se excedem. São responsabilizados, sim, pelos atos antiéticos. No entanto, o CRM não é a polícia ou o poder judiciário… Ele não vai prender ninguém.

Por fim, é muito ingênuo aquele que acredita que apenas os maus profissionais fazem uso de marketing. Imagina o que acontece quando um excelente médico tem uma excelente comunicação e uma excelente estratégia de marketing? Qual o problema nisso? Vários colegas já perceberam isso e aqueles que continuam com o pensamento equivocado de que “basta ser bom e meu negócio vai crescer” estão ficando pra trás. O mundo mudou.

A Medicina não está mais em sua fase de ouro.

Somos quase 500 mil médicos e os dados das pesquisas de demografia médica mostram um cenário que não é passageiro: o número de médicos está aumentando, a concorrência está aumentando e a média salarial está reduzindo. Assim como em qualquer setor da economia, prosperará quem tiver melhores combinações de qualidade de serviço prestado, estratégias de captação e retenção de clientes, bem como otimização de processos administrativos. Há quem diga que vamos viver a era de ouro das empresas em saúde.

Bem, esses são pontos importantes e que merecem a discussão. No entanto, não temos como negar: a Medicina é uma área com especificidades e que não deveria ser submetida às mesmas lógicas de divulgação de outras áreas de negócio.

A Medicina lida com a saúde e a qualidade de vida. Com doença, com sonhos, com limitações, com dor. Seria terrível um cenário em que médicos perdessem os escrúpulos em sua comunicação institucional e começassem a se autopromover em demasia e passassem a convencer pacientes a aderir aos tratamentos com base em sensacionalismo.

Uma coisa é dizer:

“Você está cansado de ter dificuldades de cortar as coisas em sua cozinha? Jogue tudo fora e adquira as especiais facas Ginsu”.

Outra coisa é:

“Você está cansado de remédios que só te fazem ter efeitos colaterais e não curam a sua diabetes? Pare agora mesmo e conheça os tratamentos naturais para diabetes descobertos pelo Dr. Diabetes!”

Precisamos de limites e regulação, senão a coisa vira bagunça. Esse é um fato. Mas, por outro lado, não adianta apenas reclamar.

Pedir a cassação do CRM de um médico irresponsável e antiético é sim nossa obrigação. E os CRMs são bem sensatos nesse sentido. Cassam mesmo. No entanto, é muito leviano pensar que os problemas terminam com a cassação do registro profissional do médico em questão.

O buraco é muito mais embaixo. Os problemas são muito mais sérios do que você pode imaginar.

Há um mecanismo realmente perverso e multiplicador no charlatanismo digital

Nesse artigo, quero te explicar como alguns desses profissionais nascem (no ambiente digital) e os motivos pelos quais a cassação do registro profissional não resolve o principal problema gerado por esses profissionais.

Esse relato que se segue foi feito por quem vive os dois lados da história: há 8 anos estou mergulhado no cenário do Marketing Médico no país (conduzimos o marketing de mais de 300 consultórios, sem sequer uma notificação de más práticas) e uso também estratégias de Marketing em minha empresa (que não vende nada para pacientes ou para qualquer outra pessoa de forma antiética).

Esse é um relato de um médico que acredita no poder do Bem que há na internet. E é também um relato ilustrativo que explica alguns dos pontos cruciais de algumas dessas estratégias usadas por esses profissionais antiéticos (mas não todas). Você, agora, vai entender o lado dele.

Vamos, primeiro, ao problema central:

Como exemplo, vamos abordar três perfis de “profissionais de saúde”, mas como estes, poderíamos citar pelo menos mais uns 50 “colegas” médicos:

  • O primeiro é um médico que “descobriu” um método infalível para curar a diabetes com métodos naturais (aplicável a 100% dos pacientes) em apenas 4 semanas.
  • A segunda, dessa vez uma “não médica”, depois de centenas de estudos e de milhares de pacientes tratados, descobriu uma série de exercícios que podem curar o glaucoma, a miopia e uma dezena de outras doenças oftalmológicas.
  • O terceiro criou uma comunidade de discípulos e defensores de suas práticas (no mínimo questionáveis – para não dizer outras coisas) que distribuem informações inverídicas na internet e estimulam tratamentos naturais para sérios problemas de saúde.

Provavelmente você já deve ter visto algum deles por aí, na internet. Pode até ter divulgado e ironizado um desses profissionais em um grupo médico ou mesmo ter se deparado com um vídeo, compartilhado por amigos e familiares leigos em Medicina. Se não sabe do que estou falando, faça os seguintes exercícios:

  1. Digite no Google “Diabetes Controlada”;
  2. Busque um vídeo no Youtube intitulado “Drauzio IRONIZA frase de Lair Ribeiro em evento, quem será que está com a razão?”
  3. Digite no Google “cura do glaucoma com exercícios”

O que esses profissionais têm em comum?

Eles entenderam muito bem como influenciar a decisão de pessoas leigas com promessas bem estruturadas e ganham rios de dinheiro sem precisar sair de casa. E a conta fecha: mesmo com o CRM cassado, o retorno financeiro chega a cifras absurdamente altas que compensam a perda pela interrupção da prática (o que, na verdade, não acontece com todos, dada a arquitetura do nosso sistema judicial e a fraca força de alguns CRMs).

Agora, nesse artigo, meu objetivo é mostrar como essas estratégias nascem, como são arquitetadas e porque continuarão funcionando por anos, goste você ou não. O público alvo dessa conversa são médicos e peço a sua gentileza de ler até o final.

Como nasce um Charlatão digital

Vamos começar pelo início: conheça a história do Dr. Marcinho (meu personagem fictício para evitar escrever qualquer bobagem e me meter em encrenca individual com algum desses excelentes médicos).

Dr. Marcinho é médico, formado em uma Universidade de respeito (ou não), que começou a atender seus pacientes e percebeu que a clínica médica não dava tanto dinheiro e não ia transformá-lo em milionário, como ele sempre havia sonhado.

Foram anos de frustração, trabalhando para pagar as contas com dificuldade e enfrentando muitas barreiras para se inserir no mercado. A vida de Marcinho era cinza. Até que então, surgiu uma luz no fim do túnel em sua vida.

Em um dia qualquer, no intervalo entre um paciente e outro, Marcinho navegava no Instagram, vendo as fotos de seus amigos de faculdade curtindo um fim de tarde regado a vinho em Mônaco.

E enquanto via as fotos ele só pensava onde foi que ele havia errado em suas escolhas.

De repente, como em uma mágica, ele se depara com um vídeo extremamente bem feito em sua timeline, de uma pessoa com fala fácil, muito bem aparentada e com uma postura confiante, que começa dizendo assim:

“Se você está cansado de navegar no Instagram e ver fotos de seus amigos curtindo as férias na Europa, enquanto você pensa onde foi que errou em suas escolhas, e deseja realmente mudar esse cenário, esse vídeo é pra você.”

Uau… Que coincidência!

Será que esse vídeo realmente teria sido feito para o Marcinho?

Fato é que gostamos daquilo que faz sentido pra gente. Gostamos de pessoas que parecem realmente entender o que passamos. Tendemos a gostar de tudo o que nos soa familiar. Marketeiros têm vários nomes para essa abordagem. Eu, particularmente, gosto do: “mostre que você entende o inferno e venda o céu”.

E é aí que começa o ciclo.

Dr. Marcinho acessa a página e continua assistindo ao vídeo.

A cada palavra ele se enxerga. Ele lembra do seu dia a dia e, para cada frase do vídeo, Marcinho consegue ver um exemplo prático em sua vida. A conversa se desenvolve e os argumentos consistentes acabam mostrando um cenário possível em que Marcinho conseguiria, realmente, resolver seus problemas, apenas fazendo as coisas de uma maneira diferente.

Na verdade, era esse o grande problema da vida de Marcinho. Finalmente ele percebera seu erro.

O vídeo mostra para Marcinho que ele estava, de fato, fazendo QUASE tudo da forma certa, mas pela falta de um conhecimento ou de uma metodologia que os “mestres do assunto” escondem de todos, ele nunca conseguiria ter aqueles resultados fantásticos de médicos que alcançam o status de celebridade.

Mas, para a sua sorte, aquele apresentador ali era um justiceiro.

Ele iria revelar, em um movimento contra a corrente, todos os segredos para que Marcinho conseguisse desenvolver seu negócio de uma forma diferente e curtir seus momentos de alegria em família sem o peso das contas a pagar. Marcinho merecia isso. Afinal, foram 6 anos de formação até chegar ali. Marcinho já era um vitorioso. Só faltava receber o seu prêmio. E, com esse treinamento, ele finalmente conseguiria colher os frutos que merecia.

O preço disso? Poderia até ser mais de 50 mil reais, devido à experiência do professor em questão. Mas naquele dia, para Marcinho, seria de apenas R$399,00.

Pense. R$399,00 pela possibilidade de resolver um problema grave. Uma mudança de vida. Um futuro diferente. Muito barato, concorda? Marcinho também.

Nesse dia, Marcinho começa a entender melhor o mundo dos negócios digitais. Ele começa a entender e ser incentivado a criar uma estrutura similar para atuar em seu segmento específico. A oportunidade é muito grande para ser desperdiçada.

Enquanto todos os seus colegas estão fazendo seu trabalho da forma “tradicional” e com dificuldades de pagar as contas, surge um caminho “diferente” que vai dar a Marcinho a possibilidade de ter tudo aquilo que sempre sonhou, sem esforço. E o mais importante: nenhum outro médico está fazendo isso na área de Marcinho.

É uma daquelas raras situações em que os planetas se alinham: ele é especialista no assunto, o mercado é gigantesco (agora, ao invés de ter como foco apenas os pacientes de sua região geográfica, com a internet ele consegue alcançar todos os pacientes que possuem aqueles problemas), e ele, diferentemente dos demais, tem o know-how para aplicar tudo isso, afinal, aprendeu diretamente com seu mentor.

Um parênteses rápido

Nos últimos anos esse tipo de abordagem tem sido muito comum. Pessoas fantásticas e gabaritadas ministram cursos online de qualidade incomparável. Digite “fórmula de lançamento” no Google. Busque informações sobre Érico Rocha, Conrado Adolpho, Pedro Superti e outros inúmeros ícones de negócios digitais no Brasil.

São pessoas que ajudam empresas e negócios a prosperarem, com métodos e princípios únicos, aplicáveis para gerar aumento de faturamento para diversos nichos.

Essa história não é sobre eles. É sobre o médico que usa técnicas poderosas de vendas (testadas de forma científica) para convencer pacientes sobre tratamentos duvidosos, passando por cima de qualquer regulação dos Conselhos de Medicina e indo contra a ética profissional.

Vale dizer que há muita ciência por trás de muitos desses cursos e treinamentos. Scripts de venda, como aquele inicial que “fisgou” a atenção de Marcinho, são testados com milhares de consumidores todos os dias e são aperfeiçoados para conseguirem mais e mais resultados. Palavras inseridas em pontos específicos aumentam a conversão, outras reduzem.

É um jogo de manipulação que me faz acreditar, às vezes, que várias das decisões que tomamos não foram 100% escolhidas por nós.

No fim das contas, é um jogo injusto: ultra especialistas de um lado, querendo vender a qualquer custo e clientes leigos e com problemas reais do outro, querendo, também, resolver seus problemas de qualquer maneira. Um joga com o sonho do outro.

Vários desses médicos “ícones” digitais seguiram esses caminhos. E o problema é que são convencidos por seus mentores de que tudo se resume a atrair mais pessoas e vender mais. No entanto, Medicina não é um negócio como os outros, como já conversamos. E aí nasce um problema sério.

Voltando ao Marcinho

Depois de alguns meses vendo depoimentos de outros alunos que aplicaram as técnicas do curso em seus diferentes nichos e colheram resultados, Marcinho se encoraja e também começa a planejar a atuação em seu mercado.

(Veja um desses vídeos nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=9eizptMlYf0)

E qual o maior mercado em que ele poderia atuar, naquele momento, com seus conhecimentos únicos? Poderia sim ser qualquer um, mas Marcinho escolheu o dos diabéticos. Um alto volume de pessoas com um problema crônico, que não vai passar, e sofrem diariamente com remédios e injeções dolorosas na tentativa de controlar a doença. Um público sedento por algo diferente e disposto a investir o que for preciso na busca milagrosa por uma solução.

E assim Marcinho o faz. Grava uma série de vídeos gratuitos com dicas rápidas sobre diabetes. Atrai um público inicial. Até que finalmente as pessoas passam a ser convidadas para fazer parte de uma comunidade seleta, em que ele vai revelar todos os segredos que ele aprendeu em sua prática clínica. Segredos esses que “nenhum laboratório quer que você saiba, pois se trata de um negócio altamente lucrativo para ele”.

No início, ele começa as divulgações com o freio de mão puxado. Mas rapidamente Marcinho percebe que, ao investir em anúncios e mídia, o alcance não é tão alto quando poderia se imaginar. Marcinho começa a ter controle dos números e do tráfego. Começa a ver que em determinados públicos ele é criticado, em outros, ovacionado.

Então a mágica acontece: ele começa a convencer os primeiros pacientes a comprarem seu curso de “tratamento natural para diabetes”. A primeira turma vai meio devagar, com pouco mais de 10 compradores.

O tratamento, no entanto, é VIP. Marcinho faz reuniões online por skype, mata o código de ética médica fazendo prescrições e recomendações pela internet (mas nem pensa nisso, nesse momento), e consegue oferecer um contato tão personalizado com seus clientes que ninguém teria coragem de reclamar.

Ainda mais por um detalhe curioso: um dos alunos de seu curso digital seguiu todos os passos de seu curso e acabou conseguindo resultados fantásticos! Ele aplicou absolutamente todos os ensinamentos e conseguiu mudar sua rotina. Alguns dos truques aplicados no curso e que mudaram a vida daquele aluno foram:

  • comer 19 ovos 3x por semana, plantando bananeira;
  • abolir leite desnatado da dieta quando o ano for bisexto;
  • fazer exercícios de respiração 4x durante o dia (5 se for lua cheia).

E, obviamente, algumas coisas que “todos já sabem”, como reduzir os carboidratos da dieta, fazer exercícios físicos, controlar o peso e tomar os remédios da forma correta, para não atrapalhar nas demais técnicas.

E sim… dos 10, uma pessoa se convenceu que realmente os ensinamentos de Dr. Marcinho foram fundamentais nessa transformação. Afinal, ele já tinha tentado “de tudo” antes e só com essas novas rotinas ele conseguiu resultados. Uma verdade muito forte para se agarrar, concorda?

Nesse dia, Marcinho coleta um depoimento em vídeo desse aluno, dizendo que aquele curso foi um divisor de águas na vida dele. O aluno até balança na frente da câmera, com orgulho, os exames de “glicemia pós-curso”, todos normais, e diz com todas as palavras que não teria conseguido resultados similares de outra forma.

Dos 10 alunos da turma inicial, 9 continuam da mesma forma. No entanto, ficam com a sensação de que “não deu certo por minha causa”, afinal, tudo o que Dr Marcinho falava tinha uma lógica fantástica e ainda era sustentado com um exemplo prático que todos presenciaram ao vivo naquela turma. Para a maior parte dessas pessoas, o investimento acabou valendo à pena, pois alguns dos pequenos hábitos foram entendidos e conseguiram ser incorporados no dia a dia, como a questão do leite desnatado, por exemplo. Essas pessoas ainda usam esses exemplos em rodas de amigos com louvor: “tem um médico muito bom que disse que leite é péssimo para diabetes”.

A turma acaba, Marcinho adiciona alguns vídeos à plataforma com informações que ele tinha esquecido da primeira vez e matando algumas das perguntas que seus primeiros 10 clientes fizeram com frequência. Agora, além de toda a estrutura de venda que já tinha convencido 10 pacientes, ele vai mostrar também seu “histórico de resultados positivos”, com o vídeo depoimento daquele paciente contando sobre seus resultados.

Agora, na segunda turma, com mais experiência e conhecimento digital, Marcinho já sabe o que dá certo e o que não funciona no seu nicho de atuação. Com o mesmo investimento, agora ele consegue 50 alunos.

Com o aumento da receita e com a redução da necessidade de retirar dúvidas (afinal, ele gravou vários vídeos com as dúvidas da primeira turma que são as mesmas da segunda), Marcinho consegue investir mais em captação de novos alunos e se dedicar menos às turmas atuais. Com o aumento de exemplos e depoimentos em vídeo, ele acaba criando uma comunidade de pessoas que são extremamente promotoras de suas técnicas. Essas pessoas defendem Marcinho com unhas e dentes em redes sociais e fóruns.

Marcinho começa a ficar conhecido. E, nesse momento, enquanto alguns criticam, centenas de novos alunos compram seus cursos todos os meses. A receita de Marcinho bate na casa das centenas de milhares (os “6 dígitos em 7 dias” – não sabe do que se trata? Digita no Google).

Nesse ponto, ele começa a atrair seguidores e pessoas interessadas em divulgar também o seu trabalho. Várias pessoas começam a conversar com Marcinho pedindo para ajudar nas vendas de seus cursos, ganhando uma pequena comissão. Ele começa, então, a acessar plataformas de afiliação.

Afiliação? Calma. Marcinho também não sabia o que era isso.

Depois de muito navegar e perguntar para seus professores e mentores, participantes de seus cursos iniciais, Marcinho entende que essas plataformas são formas de conseguir replicar seus cursos, mediante pagamento de comissões para quem ajudar a vender o produto. A ideia é muito interessante para Marcinho: ganhar mais e terceirizar o trabalho? Claro!

Marcinho se dedica à criação de discursos (chamadas “cartas de venda”) para terceiros se apropriarem, conteúdos para anúncios que ele já testou e sabe que dá certo, explicação sobre o que ele já fez que não funcionou e dicas de como vender o curso para pacientes diabéticos. Rapidamente, nessas plataformas de afiliação, as pessoas começam a se interessar pela alta comissão daquele produto. E começam a criar blogs e páginas em redes sociais com informações sobre diabetes. Nessa comunidade de pessoas temos profissionais de toda a sorte: de desempregados que encontram na internet uma forma de empreender com baixo custo a profissionais com todo tipo de formação que usam a internet como forma de conseguir uma receita adicional.

Cada uma dessas pessoas usa seu próprio método. Alguns possuem formação suficiente para falar com propriedade sobre diabetes e fazer um trabalho sério (acreditando que o curso de Marcinho também é sério, afinal, ele é médico).

Outros não fazem a menor ideia do que é diabetes e aprendem com o próprio Dr. Marcinho, assistindo seus vídeos. E aquelas informações começam a ser repassadas como verdade absoluta para terceiros (afinal, Marcinho é médico).

Ali a coisa começa a fugir realmente de rumo.

Isso porque, a cada novo conteúdo publicado em um site diferente com um link para as páginas do Dr Marcinho, o site do curso começa a ganhar relevância.

O Google pensa assim: “se esse tanto de outros sites começam a colocar links para o site do Dr. Marcinho quando pessoas buscam por diabetes, deve ser porque o site do Dr. Marcinho é muito bom para diabéticos! Logo, quando o próximo usuário do Google digitar o termo ‘diabetes’ no campo de busca, vou mostrar o site do Dr. Marcinho um pouco mais acima dos demais, até ele atingir o primeiro lugar se continuar fazendo esse excelente serviço no longo prazo”.

E sim, esse é um grande problema de saúde pública.

Mensalmente, milhões de brasileiros buscam no Google por termos similares à “diabetes”.

Termos e variações como:

  • o que é diabetes;
  • controle do diabetes;
  • tratamento do diabetes;
  • remédio para diabetes;
  • cura do diabetes.

E, quanto maior é o número de pessoas ganhando dinheiro com os cursos do Dr Marcinho, mais links para os sites dos cursos e mais relevância orgânica ele terá. Mais acima nas buscas o site ficará. Mais comunidades em redes sociais replicando mentiras e mais grupos defendendo os métodos.

Até que chegaremos em um momento único em que acontece um fenômeno social fantástico e muito interessante: as pessoas começam a esquecer da origem daquelas informações (afinal, há tanto tempo aquilo é uma verdade na vida delas) e começam a de fato acreditar que aquelas informações são verdadeiras. Chegam a brigar e defender de forma agressiva os ensinamentos de Dr. Marcinho. Gosto de entender essa sequela geral como uma espécie de Gaslighting social.

Mesmo que Marcinho queira parar, agora não há volta.

lair ribeiro e o charlatanismo médico

Com o amadurecer do processo, começam a aparecer afiliados espertinhos, com técnicas cada vez mais sofisticadas. Um deles cria um site falso de Harvard (hipotético: harvardoficial.com.br) que possui um PDF contendo um estudo científico (feito pelo afiliado) que cita fontes infinitas (e nunca verificáveis) que provam que Dr. Marcinho está certo. E a mentira coletiva vira sequela coletiva e a roda gira.

A reação da comunidade médica

Nesse ponto, aquelas publicações caem em grupos médicos com altos números de usuários. E viram motivos de chacota. As reclamações são imediatas e a mobilização é extrema. Médicos reclamam que os Conselhos não fazem nada contra esses indivíduos que acabam com a boa imagem do médico brasileiro. Divulgam em suas redes sociais, grupos de Whatsapp e repassam para amigos e familiares. Aquilo começa a ser percebido por todos.

As reclamações aumentam em volume e frequência, até que o CRM é envolvido.

Agora a coisa fica séria. O CRM abre uma investigação e envia uma notificação para Dr. Marcinho. Marcinho lê a notificação dizendo que está infringindo as regras de publicidade médica, bem como falando informações sensacionalistas e sem cunho científico. O CRM é claro: se Marcinho não parar, pode até ser cassado.

Marcinho olha a carta do CRM em sua mão esquerda. Na mão direita está com o celular aberto na tela do banco, mostrando seu extrato já na casa dos milhões (3 ou 4 quando chegam as primeiras notificações do CRM). Ele contrata um advogado e ganha mais 12 meses para rebater o processo (e mais alguns milhões).

Perde o recurso e recebe agora uma notificação em jornal de grande circulação em sua cidade. Marcinho olha o jornal, olha o extrato bancário, agora com mais de 8 milhões. Ele pensa: “quem lê jornal hoje em dia?”. E continua.

Até que, mais alguns meses depois, seu CRM é cassado. Uma tragédia. Marcinho não pode mais atender em seu consultório, atender como médico ou até se divulgar médico.

Marcinho, então, percebe que os visitantes de seu site não foram informados desse pequeno inconveniente. Passa o rebuliço nas redes sociais, os médicos começam a discutir sobre as chapas das eleições do CRM e sobre novos casos de abuso, e Marcinho sai do radar.

No entanto, as pessoas que buscam por termos como “tratamento do diabetes” não foram informadas que o CRM de Marcinho foi cassado. E o faturamento de Marcinho não muda absolutamente nada depois disso.

Veja essa verdade de uma outra forma…

a) Tendência de busca pelo termo “Tatiana Gebrael” no Google (aquela dos tratamentos de doenças oftalmológicas com exercícios oculares). Alguns picos (épocas de maior divulgação nos grupos médicos) entremeados com um movimento basal de pessoas interessadas em seus cursos. Note que os “picos de conscientização” não fazem reduzir os “vales de interesse de pacientes”.

trends tatiana gebrael charlatanismo médico

b) Veja o gráfico do termo “Lair Ribeiro”. Um pico de conscientização que não afetou o basal:

trends lair ribeiro charlatanismo médico

c) Esse talvez um dos mais icônicos. Apareceu até o no fantástico, se defendendo. O CRM, cassado. Mesmo nesse caso (conscientização em escala nacional), o basal continua:

trends dr rocha charlatanismo médico

d) E o mais recente de todos… Dr. Bumbum:

trends dr bumbum charlatanismo médico

Voltemos para Marcinho…

Um processo que corria há anos finalmente sai e a justiça ordena que Marcinho retire o site do ar. Marcinho remove os conteúdos de seu site principal, troca por informações pessoais e coloca redirecionamentos em páginas específicas para que, quando um paciente buscar uma página sobre tratamento do diabetes, ao invés de ser direcionada à página dentro do site de Marcinho, agora vai ser direcionada para um dos milhares de parceiros de Marcinho que também vendem seus cursos.

Marcinho pensa, corretamente: “a justiça vai condenar milhares de afiliados a fazer o mesmo, individualmente? Claro que não”.

Saldo: Marcinho, com seu CRM cassado e milhões em conta, continua sendo defendido por seus milhares de seguidores em redes sociais e em páginas diversas da internet. Vira assunto público. Desde que não mate ninguém (diretamente), nada dá errado. E continua faturando alto com fake news e disseminando informações erradas na internet. Para evitar qualquer tipo de “estresse”, muda a forma de pagamento para Paypal e saca o dinheiro diretamente em sua conta no exterior… tudo de forma legal.

Esse é um mecanismo perverso.

Uma roda que não para depois que começa a girar. Você, médico do Bem, pode achar que uma denúncia no CRM e uma mudança de comportamento da classe vai resolver esses problemas. Mas não vai.

Você pode achar que compartilhar uma campanha da sua sociedade médica dizendo que essas informações são falsas vai resolver o problema. Mas como você viu com gráficos… não vai.

O mecanismo é perverso pois acontece todos os dias, 24h por dia, 365 dias no ano. No caso de Marcinho, citei como fonte de receita a venda de cursos. Mas poderia ser qualquer outra coisa: um e-book, um livro físico, um tratamento presencial com valores compatíveis com o status de celebridade da pessoa em questão… A lógica existe pois a audiência move um valor extremamente desproporcional ao custo operacional, o que gera margem que justifica a perpetuidade dos investimentos. Enquanto houver audiência, a roda continua girando, gerando milhares de reais para os envolvidos.

As pessoas sempre vão buscar por informações sobre diabetes na internet, os afiliados sempre vão publicar mais e mais conteúdos sobre diabetes (falsos ou não, afinal, eles vendem os cursos de qualquer forma), o Google sempre vai ranquear essas páginas e as conversas das pessoas em redes sociais e fóruns sempre vai ser leiga.

Não estou defendendo Marcinho. Ele não é vítima. É, sim, uma pessoa que não entende o tamanho de sua responsabilidade como médico. No entanto, uma punição exemplar não vai resolver o real problema e acabar com o legado criado por ele.

Marcinho pode ser preso. Marcinho pode ser extraditado. A classe médica vai compartilhar memes de Marcinho atrás das grades, feliz da vida.

Mas os pacientes vão continuar buscando por termos relacionados à diabetes e vão continuar caindo nas páginas de Marcinho e seus afiliados. Os cursos continuarão sendo vendidos. Mesmo que sejam banidos de uma plataforma específica, vão ser replicados em outras plataformas. Às vezes até proprietárias, em que ninguém manda, só Marcinho.

O fato é que, para resolver esse problema, médicos conscientes e do Bem têm que entender que a arma que temos é a mesma.

Não estou falando de criar cursos digitais, gravar vídeos e nos expormos em grupos e redes sociais. Não é isso.

A única forma de remover conteúdos do topo das buscas do Google e demais buscadores é colocando algo de melhor qualidade na frente. E isso é um trabalho hercúleo. Não é com um blog com um artigo sobre diabetes sendo escrito por mês que um site de um médico vai superar as milhares de publicações leigas e falsas que são publicadas todos os dias.

Existem vários fatores técnicos que influenciam nesse processo (otimização dos conteúdos para motores de busca, qualidade do conteúdo, relevância dos domínios e sites, número de links e qualidade de links existentes na internet recomendando determinado conteúdo, volume de engajamento social e centenas de outros fatores). E não acreditamos que um médico deve entender sobre isso.

No entanto, seria muito interessante que médicos e jornalistas (ou especialistas em conteúdo digital) atuassem em conjunto: os últimos produzindo conteúdos com técnica digital apurada, contando com a curadoria dos primeiros. Isso seria fantástico, imagina?

A forma de brigar com pessoas como Marcinho é fazendo algo melhor e com mais qualidade. É utilizar das mesmas armas, com intenção genuína de ajudar os pacientes a encontrar informações relevantes sobre suas buscas.

Nos últimos dias, durante todo o acontecido com o Dr Bumbum (se você não sabe do que se trata, digite no Google), tive a oportunidade de ver um colega cirurgião plástico esclarecendo a população leiga sobre o assunto. Ele dizia algo como:

“A reputação de um médico não é aferida pelas redes sociais, mas pelo Conselho de Medicina”.

O contexto era dizendo que redes sociais e internet não eram os melhores locais para buscar informações sobre médicos.

Essa frase me fez pensar por muito tempo. Qual será o melhor caminho? Qual será a melhor forma de combater o problema? Fato é que negar a evolução não é a melhor forma. As pessoas sempre usarão a internet para buscar informações e a tendência é que o comportamento aumente, não diminua.

Pedir para a população não recorrer à internet quando o assunto é saúde é o mesmo que dizer a um cachorro não adestrado para não comer o petisco à sua frente.

As pessoas buscam por informações de saúde na internet todos os dias e essas informações são responsáveis por influenciar mais de 80% das pessoas a agendarem uma consulta médica, segundo dados do Google. Ou seja: a informação errada é prejudicial, mas a correta é extremamente boa.

O Brasil que eu quero (rsrs) é aquele em que todos os bons médicos tenham seus sites, seus blogs e suas redes sociais. Que produzam um volume de conteúdo gigante todos os meses, com a técnica de jornalistas. E que comecem a indicar conteúdos de colegas e colocar vários links em seus sites divulgando conteúdos excelentes de outros sites confiáveis.

Nesse mundo ideal, eu, como paciente, ao buscar por termos relacionados à diabetes, encontraria nas primeiras 10 posições do Google apenas resultados confiáveis de médicos que entenderam a lógica do jogo. Os conteúdos leigos e maliciosos perderiam a relevância e seriam jogados para as páginas seguintes.

Qual o impacto disso? Vamos fazer algumas contas:

1.500.000 (!!!) de pessoas buscam no Google pelo termo “Diabetes”, todos os meses, no Brasil.

diabetes adwords charlatanismo médico

Hoje, todas as 1.500.000 são expostas à possibilidade de clicar nas páginas de pessoas como Dr. Marcinho, que estariam nas primeiras posições (O Dr. Rocha, por muito tempo, ficou na primeira posição dessa busca).

Segundo dados da Hubspot (uma gigante da área de marketing digital), 34,36% dos usuários clicam no primeiro resultado do Google. Os números caem conforme cai a posição da página ranqueada.

Há um consenso entre marketeiros que o melhor lugar para se esconder um corpo é na segunda página do Google (apenas 4% dos usuários vão até ela).

Ou seja: atualmente, 510 mil brasileiros iriam até a página de Marcinho (primeira posição), nesse termo específico.

No cenário em que Marcinho estaria na segunda página (e usando a mesma estatística de que 34% das pessoas clicariam no primeiro resultado da segunda página – o que não sei se é verdade ou não), ele receberia apenas 1,5 milhão x 4% x 34,36% de acessos, que daria um total de 2.000 acessos mensais (ainda uma tragédia, mas com impacto de apenas 0,4% do total anterior).

O problema é que aqueles afiliados, que são motivados por manter seus funis de venda de cursos funcionando, são muito perspicazes.

Fazer com que um paciente que busca “diabetes” se interesse por um curso sobre “formas de curar o diabetes” é algo fácil. Nível 1 de dificuldade.

Agora, fazer com que um paciente que busca por termos como “metformina” se interessem pelo mesmo curso já é algo mais difícil. Nível 3 ou 4, talvez. Um marketeiro de plantão poderia, por exemplo, escrever um artigo em um blog intitulado:

“51 motivos pelos quais você deve trocar a Metformina por tratamentos naturais”

Imagine se esse resultado aparecesse na primeira posição, ao invés de algo científico sobre o assunto, explicando como o paciente deve usar a Metformina da forma como prescrita pelo médico assistente?

A questão é que o volume de formas com que marketeiros conseguem atingir o público é simplesmente gigantesco. Com 3 palavras adicionais em minha lista anterior, o volume somado de busca quase atinge 2 milhões mensais. Veja:

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Portanto, a saída é consistência e volume. É mudar a mentalidade e a forma de agir no dia a dia. Atender pacientes é algo extremamente importante. Educá-los também.

E você pode pensar que é muito esforço para “simplesmente” conseguir resolver um problema de saúde pública, sem ter retorno pessoal pelo esforço. No entanto, a estratégia é ganha-ganha para todos os lados: pacientes mais educados por médicos do Bem e consultórios de médicos do Bem mais cheios, pois conseguem mais audiência.

Imagino o que aconteceria com uma clínica que tivesse na primeira posição do Google para o termo “diabetes”. Pacientes extremamente educados no assunto, com informações corretas, buscando por serviços na clínica. Ao invés de consultas que demorariam 30 minutos só para explicar o que é a doença, teríamos pacientes que já saberiam de forma mais clara e tirariam dúvidas pertinentes com seus médicos.

Não consigo enxergar um cenário em que a internet vai sair da vida das pessoas. Ainda mais quando o assunto é saúde. Quando eu tenho um problema de saúde, a primeira coisa que faço é buscar no Google informações adicionais sobre o assunto. E não pretendo parar com esse comportamento. Não consigo me imaginar segurando minha ansiedade até o dia de uma consulta para só então ter acesso a alguma informação de qualidade.

Esse é um problema que muito me interessa. Tanto interessa que criei uma empresa que endereça esse tipo de situação. Hoje, ajudamos centenas de médicos a colocarem sua marca na internet, cada um ocupando posições de destaque para termos de saúde específicos.

Fico muito feliz em dizer, por exemplo, que para buscas como “pediatra”, em Belo Horizonte, dominamos quase toda a primeira página do Google. São excelentes médicos que levam informações relevantes para centenas de pacientes que buscam e sempre continuarão buscando por termos de saúde. Tudo isso com a mãozinha de jornalistas treinados e curadoria por médicos capacitados, que estão enchendo a internet de conteúdos confiáveis.

Se quiser conhecer mais sobre nosso trabalho, acesse o site www.imedicina.com.br e agende um horário com um consultor.

Ou, se preferir, crie um blog em uma ferramenta gratuita como Blogspot e comece a publicar conteúdos de qualidade sobre os assuntos que te interessam. Fato é que no longo prazo você terá maior visibilidade e vários pacientes serão impactados por suas informações.

O CRM pode ter suas limitações ao atuar em casos como esses. Mas você não.

Você está a algumas teclas de distância de intervir nesse tipo de problema.

O que não podemos fazer é achar que tudo se resume à uma cassação de CRM ou mesmo prisão de um charlatão. Esse é apenas um começo.