Programa Mais Médicos: críticas históricas e mudanças atuais

mais médicos

O Programa Mais Médicos foi criado em 2013 para ampliar a presença de profissionais em regiões prioritárias para o Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na atenção primária. Desde o início, porém, o desenho do programa gerou críticas de entidades médicas, principalmente sobre a participação de profissionais formados no exterior sem diploma revalidado, as condições de trabalho no SUS e a capacidade de fixar médicos em áreas de maior necessidade.

Essas críticas precisam ser lidas no contexto em que foram feitas. O programa mudou ao longo do tempo, a legislação foi atualizada e novas avaliações acadêmicas analisaram seus efeitos. Por isso, não é correto tratar a percepção da classe médica em 2013 como se fosse um “índice de satisfação” atual ou representativo de todos os profissionais.

O que é o Programa Mais Médicos

Instituído pela Lei nº 12.871/2013, o Programa Mais Médicos tem entre seus objetivos reduzir a carência de médicos em regiões prioritárias, fortalecer a atenção primária e integrar ações de formação e provimento de profissionais no SUS.

Em sua configuração atual, o programa continua ativo. O Ministério da Saúde mantém chamamentos para o Projeto Mais Médicos para o Brasil, voltado à atenção primária, e informa que médicos formados no Brasil ou com diploma revalidado têm prioridade na seleção das vagas. Também podem participar, nas condições previstas em lei e nos editais, brasileiros e estrangeiros formados no exterior.

Por que entidades médicas criticaram o programa

Participação de médicos formados no exterior e Revalida

Um dos principais pontos de conflito desde 2013 foi a possibilidade de médicos intercambistas atuarem dentro do projeto sem a revalidação prévia do diploma. Na época da criação do programa, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselhos Regionais questionaram esse modelo e defenderam a exigência do Revalida como mecanismo de comprovação da formação para o exercício profissional no país.

Essa posição foi formalizada em manifestações e medidas judiciais do período. Em julho de 2013, por exemplo, o CFM informou ter ajuizado ação civil pública contra dispositivos do então novo programa, com questionamentos sobre revalidação de diplomas, proficiência em língua portuguesa e regras de registro dos participantes.

A legislação, entretanto, criou um regime específico para o médico intercambista dentro do Projeto Mais Médicos para o Brasil. A atuação é restrita ao âmbito do projeto e segue regras próprias de registro, supervisão e fiscalização. A Lei nº 14.621/2023 atualizou esse regime: nos primeiros quatro anos de participação, o intercambista pode atuar no projeto sem revalidar o diploma; eventual prorrogação depende da apresentação do diploma revalidado.

Infraestrutura e condições de trabalho no SUS

Outra crítica frequente de entidades e profissionais dizia respeito à estrutura disponível nos locais de atuação. O argumento era que aumentar o número de médicos, isoladamente, não resolveria dificuldades relacionadas a equipamentos, medicamentos, fluxos de referência, equipes completas e capacidade de diagnóstico e tratamento.

Essa discussão continua relevante para qualquer política de provimento. A presença do médico é apenas uma parte da capacidade assistencial: qualidade da atenção também depende da organização da rede, dos demais profissionais, de insumos, de acesso a exames e da continuidade do cuidado.

Distribuição e fixação de profissionais

O programa também foi questionado sobre sua capacidade de direcionar e manter profissionais exatamente nos territórios de maior necessidade. Esse ponto apareceu tanto no debate institucional quanto em estudos posteriores.

Uma análise publicada em 2020 na BMC Health Services Research, com dados de municípios brasileiros entre 2008 e 2017, encontrou aumento na oferta de médicos da atenção primária após a implantação do programa, mas também identificou substituição de profissionais já existentes e problemas de alocação em relação aos critérios de prioridade. O estudo associou o programa a uma redução modesta de mortalidade evitável, com efeitos maiores em municípios prioritários e com menor densidade médica inicial.

O que mudou nas regras desde 2013

O desenho legal do Mais Médicos não é o mesmo de seu lançamento. Entre as mudanças trazidas pela legislação de 2023 estão novos incentivos para áreas de difícil fixação, atualização do período de formação e regras mais explícitas sobre a permanência de médicos intercambistas.

Atualmente, a ordem de prioridade para preenchimento das vagas coloca primeiro os médicos formados em instituições brasileiras ou com diploma revalidado e registro no CRM. Depois vêm brasileiros formados no exterior e, em seguida, estrangeiros habilitados para exercer medicina no país de formação, conforme os critérios dos editais e da legislação.

Em 2026, o Ministério da Saúde mantém ciclos de seleção do Projeto Mais Médicos para o Brasil, o que confirma que a política segue em funcionamento. As regras específicas, vagas e cronogramas podem mudar entre os editais, por isso devem ser conferidos na página oficial do Programa Mais Médicos.

O que as pesquisas mostram sobre os resultados

As avaliações científicas não sustentam uma conclusão única sobre o impacto do programa. Isso acontece porque os estudos analisam períodos, territórios e desfechos diferentes.

O estudo de 2020 citado anteriormente encontrou aumento líquido na densidade de médicos da atenção primária e uma redução modesta de mortalidade evitável, mas apontou limitações na alocação de profissionais. Já uma análise publicada em 2024 na Social Science & Medicine, usando outra metodologia, não identificou efeito médio estatisticamente significativo do aumento de médicos do programa sobre hospitalizações ou mortalidade no período analisado.

Também existem estudos sobre satisfação dos usuários do SUS. Uma pesquisa com 263 usuários de 32 municípios com alta proporção de extrema pobreza encontrou avaliação positiva do atendimento prestado por médicos do programa. Esse resultado, porém, mede a percepção de usuários em um conjunto específico de municípios e não representa a satisfação dos médicos com a política.

Essas diferenças são importantes: satisfação de pacientes, opinião de entidades médicas, distribuição de profissionais e impacto em indicadores de saúde são perguntas distintas e não devem ser combinadas em um único “índice de satisfação”.

Como entender o debate sobre o Mais Médicos hoje

As críticas feitas por entidades médicas no início do programa fazem parte da história da política pública e ajudam a entender temas que continuam em debate, como revalidação de diplomas, qualidade da formação, condições de trabalho e distribuição territorial de profissionais.

Ao mesmo tempo, o marco legal mudou desde 2013 e o programa segue ativo, com regras atuais que precisam ser analisadas separadamente das versões anteriores. Para uma leitura equilibrada, é importante distinguir três dimensões: as posições institucionais de cada entidade, o que a legislação efetivamente determina e o que as avaliações científicas encontraram em períodos específicos.

Assim, mais do que classificar o Programa Mais Médicos como positivo ou negativo, uma análise atual precisa observar quais objetivos estão sendo avaliados, quais regras estavam em vigor no período estudado e quais resultados podem ser sustentados por dados.