Fake news na medicina: como médicos podem combater a desinformação em saúde

Médica consulta computador e celular ao verificar informações de saúde, com indicadores visuais de conteúdo falso e verificado.

Fake news na medicina podem confundir decisões, reforçar crenças sem base científica e dificultar o acesso a orientações confiáveis. Nesse cenário, médicos podem contribuir produzindo conteúdo educativo, verificando fontes antes de compartilhar informações e explicando temas de saúde em linguagem acessível.

Essa atuação exige responsabilidade. O objetivo não é transformar uma publicação em consulta individual nem responder a toda informação falsa que aparece nas redes, mas criar referências confiáveis e ajudar o público a diferenciar evidência, opinião, dúvida legítima e alegações sem sustentação.

Fake news, desinformação e informação incorreta são a mesma coisa?

No uso cotidiano, “fake news” costuma ser usado para descrever diferentes tipos de conteúdo falso ou enganoso. Tecnicamente, porém, existe uma diferença importante.

A Organização Mundial da Saúde distingue a informação falsa compartilhada sem intenção de enganar da desinformação produzida ou disseminada com conhecimento de que é falsa e com intenção de enganar. Para quem comunica saúde, essa diferença ajuda a definir a melhor resposta.

Uma pessoa pode, por exemplo, compartilhar uma orientação ultrapassada acreditando que ela ainda é correta. Esse caso pede esclarecimento e atualização. Já uma publicação que manipula deliberadamente evidências, omite contexto ou fabrica uma alegação exige ainda mais cautela antes de ser reproduzida, mesmo com a intenção de desmenti-la.

Outro conceito relevante é o de infodemia: um ambiente com grande volume de informações, verdadeiras ou não, que torna mais difícil encontrar orientações confiáveis. O problema, portanto, não está apenas em conteúdos completamente falsos. Informações desatualizadas, incompletas ou apresentadas sem contexto também podem induzir interpretações equivocadas.

Por que a desinformação em saúde merece atenção?

Decisões de saúde podem ser influenciadas pelo que as pessoas encontram em mecanismos de busca, redes sociais, vídeos e aplicativos de mensagens. Quando uma alegação é apresentada sem fonte, com linguagem alarmista ou como uma solução universal, ela pode parecer mais segura do que realmente é.

Em saúde, isso exige cuidado adicional porque evidências mudam, recomendações podem depender do perfil de cada pessoa e resultados de estudos precisam ser interpretados dentro de seus limites. Uma orientação válida para determinado grupo não pode ser automaticamente aplicada a todos.

O papel do médico na comunicação digital pode ser justamente oferecer contexto: explicar o que já se sabe, quais são as incertezas e quando uma dúvida depende de avaliação profissional individualizada.

Como médicos podem combater fake news na medicina?

1. Verifique a informação antes de publicar ou compartilhar

O primeiro passo é investigar a origem da alegação. Prints, vídeos curtos, mensagens encaminhadas e posts sem referência não devem ser tratados como fonte suficiente.

Antes de transformar uma informação em conteúdo, vale conferir:

  • quem publicou a informação originalmente;
  • quando ela foi publicada ou atualizada;
  • se existe fonte científica, normativa ou institucional identificável;
  • se a conclusão apresentada corresponde ao que a fonte realmente afirma;
  • se existem condições, limitações ou exceções omitidas;
  • se recomendações oficiais mais recentes modificaram aquela orientação.

Quando houver estudo científico, é preferível consultar a publicação original ou uma fonte técnica confiável em vez de reproduzir apenas a interpretação feita por terceiros.

2. Transforme dúvidas reais em conteúdo educativo

Perguntas recebidas em consulta, dúvidas recorrentes da população e temas que geram confusão podem orientar boas pautas. O conteúdo, porém, deve responder a essas questões sem induzir autodiagnóstico ou criar uma recomendação terapêutica individual para quem está lendo.

Uma explicação útil apresenta o conceito principal primeiro, traduz termos técnicos quando necessário e deixa claras as limitações da informação. Frases como “a indicação depende do contexto clínico” são mais adequadas quando não existe uma resposta universal.

3. Corrija informações falsas sem aumentar o sensacionalismo

Nem todo boato precisa ser repetido em destaque para ser corrigido. Em muitos casos, é mais claro apresentar primeiro a informação correta, explicar qual evidência a sustenta e só depois esclarecer por que determinada alegação pode induzir ao erro.

Também é importante evitar títulos alarmistas, linguagem de confronto e afirmações absolutas. O objetivo da correção deve ser informar, não gerar mais alcance para a mensagem problemática.

4. Tenha referências próprias e estáveis na internet

Site, blog e redes sociais podem exercer funções complementares. Um artigo mais completo pode servir como referência estável para uma dúvida, enquanto conteúdos curtos ajudam a apresentar o assunto e direcionar o público para uma explicação mais aprofundada.

Não é necessário estar em todas as plataformas. A escolha dos canais deve considerar onde o público realmente busca informação e a capacidade do médico ou da clínica de manter os conteúdos atualizados.

5. Oriente o público para fontes confiáveis

Órgãos públicos, instituições científicas e entidades técnicas podem ser úteis para confirmar informações e acompanhar orientações atualizadas. No Brasil, o Ministério da Saúde mantém a iniciativa Saúde com Ciência, voltada ao acompanhamento da desinformação relacionada à saúde e à divulgação de informações baseadas em evidências.

Quando houver dúvida sobre uma mensagem relacionada à saúde pública, consultar a fonte institucional antes de compartilhar pode evitar que um conteúdo incorreto ganhe mais alcance.

O que o CFM estabelece para conteúdos médicos na internet?

A Resolução CFM nº 2.336/2023 disciplina a publicidade e a propaganda médicas e alcança a comunicação realizada em sites, blogs e redes sociais próprias de médicos e estabelecimentos médicos.

Entre os pontos relevantes para quem produz conteúdo estão a responsabilidade do médico pelo material divulgado, a identificação profissional exigida no perfil ou página principal e a necessidade de informar especialidade ou área de atuação com o respectivo RQE quando ela for divulgada e estiver registrada.

A norma também veda propaganda enganosa, conteúdo inverídico, sensacionalismo e promessas ou insinuações de bons resultados de tratamento. Além disso, conteúdos de terceiros ou pacientes que sejam repostados pelo médico em suas redes passam a ser considerados publicações dele para fins das regras de publicidade médica.

Ao mesmo tempo, o CFM permite que médicos utilizem suas redes próprias para disponibilizar informações acadêmicas e educativas à comunidade, desde que observem os limites éticos e as demais exigências aplicáveis.

Por isso, combater desinformação não significa publicar qualquer conteúdo em nome de uma boa intenção. A forma da comunicação, a identificação profissional, as fontes utilizadas e a maneira como benefícios, riscos e resultados são apresentados também precisam ser avaliadas.

Checklist antes de publicar um conteúdo de saúde

Antes de colocar um artigo, vídeo ou postagem no ar, uma revisão simples ajuda a reduzir erros:

  • Fonte: a origem da informação está identificada e pode ser consultada?
  • Atualidade: a recomendação continua válida?
  • Contexto: condições, limitações e exceções relevantes foram preservadas?
  • Linguagem: o conteúdo informa sem alarmismo, promessa ou diagnóstico individual?
  • Identificação: o perfil ou página atende às exigências aplicáveis de identificação profissional?
  • Revisão: afirmações clínicas, regulatórias ou controversas foram conferidas antes da publicação?

Conteúdo confiável também faz parte de uma presença digital responsável

Produzir informação de qualidade não elimina a desinformação da internet, mas ajuda médicos e clínicas a disponibilizarem referências mais claras para as dúvidas que já fazem parte da rotina dos pacientes.

Uma estratégia de presença digital pode combinar site, conteúdo e outros canais de comunicação de acordo com os objetivos do consultório e com as regras aplicáveis à publicidade médica. O iMedicina oferece serviços voltados à estruturação de sites, conteúdo e estratégias de marketing médico para profissionais e clínicas que desejam organizar essa presença digital.

Mais importante do que publicar em grande volume é manter um processo editorial confiável: verificar, contextualizar, atualizar e comunicar com responsabilidade.